Agora que estamos chegando na fase final do app, a pergunta que mais chega aqui é sempre a mesma: qual é o material certo para ter no portfólio.
A resposta não é sobre quantidade, e não é sobre ter o vídeo mais bonito. É sobre uma coisa que quase ninguém explica para quem está começando: as marcas pedem dois tipos de conteúdo diferentes, e a maioria dos portfólios é montada com o tipo que rende menos.
Os dois tipos de vídeo que as marcas pedem
Quando uma marca procura alguém para produzir conteúdo, ela está atrás de uma destas duas coisas. Elas parecem a mesma de fora, e não são.
Conteúdo orgânico é o que ela vai postar no próprio perfil. Serve para presença e comunidade: o unboxing bonito, o dia na vida, o vídeo alinhado com o áudio do momento, as imagens caprichadas do produto. Ele existe para a marca ter o que publicar e para as pessoas se aproximarem dela. O resultado se mede em visualização, comentário e salvamento, e ele demora a virar venda.
Conteúdo pago é o que ela vai colocar dinheiro atrás para rodar como anúncio, no Instagram, no Facebook ou no TikTok. Esse tem uma tarefa só: vender. Por isso ele é mais direto, aponta um problema logo no começo, mostra o produto como a solução e termina dizendo o que a pessoa deve fazer agora.
O erro que quase todo portfólio comete
Portfólio cheio de vídeo orgânico bonito. E é compreensível: é o que fica bem no perfil, é o que dá orgulho de mostrar, é o que se parece com o conteúdo de quem já está estabelecido.
Só que quem abre o seu portfólio do outro lado está procurando outra coisa. Um portfólio inteiro de vídeo bonito responde “sei filmar”. Ele não responde “sei fazer vender”, que é a pergunta que a marca está fazendo.
Vale reparar num detalhe: entre os formatos mais populares, o unboxing é o mais orgânico de todos. Ele quase sempre nasce para o perfil da marca, não para o anúncio. Ter um é ótimo. Ter três é um portfólio inteiro respondendo a pergunta errada.
De que lado está cada formato
Nenhum formato é ruim. O que existe é formato que nasce para o perfil e formato que nasce para o anúncio, e saber de qual lado cada um está é o que faz você escolher em vez de chutar.
- Puxam para o orgânico: unboxing, um dia na minha vida, ASMR, montagem de imagens bonitas do produto, vídeo com o áudio do momento.
- Puxam para o anúncio: problema e solução, depoimento falando com a câmera, três motivos, resposta a objeção, antes e depois, comparação.
- Ficam no meio, e dependem de como você grava: tutorial, demonstração e review.
Repare que o tutorial muda de lado conforme a abertura. Começando por “vou te mostrar como usar”, ele é orgânico. Começando por “eu passei dois anos fazendo isso do jeito difícil”, ele vira anúncio, com exatamente o mesmo conteúdo no meio.
A lista completa dos formatos, com o objetivo de cada um, está em Ideias de UGC: 15 formatos de vídeo que as marcas mais pedem.
Como é um vídeo de anúncio, por dentro
Ele tem partes reconhecíveis. Não são regra, e não precisam aparecer todas nem nessa ordem, mas é raro um vídeo que converte não ter a maioria delas.
- 1
O gancho
Os primeiros segundos, e a parte mais importante do vídeo. É o que faz a pessoa parar de rolar. O TikTok diz no próprio material para anunciantes que 90% da lembrança de um anúncio se decide nos seis primeiros segundos.
- 2
O problema
Nomear uma dor que quem assiste reconhece. Não descrever: fazer sentir. A pessoa precisa pensar “isso é comigo” antes de você falar do produto.
- 3
O produto como solução
Aqui o produto entra, e entra resolvendo o que você acabou de nomear. Mostrar em uso vale mais do que descrever.
- 4
O diferencial
Por que este e não outro. Dito como benefício, nunca como ficha técnica: se o produto tem um ingrediente, não pare no nome dele, diga o que ele faz por quem usa.
- 5
A prova
Uma frase que mostre que não é só você achando. Avaliação, resultado, antes e depois honesto.
- 6
A chamada
Dizer exatamente o que fazer agora. Sem isso, o vídeo acaba e a pessoa rola para o próximo.
A ordem pode mudar, e mudar é uma boa ideia. Dá para começar pelo problema, pela prova, ou por uma explicação que só depois se liga ao produto. O que raramente funciona é o vídeo que só elogia.
Você não precisa acreditar em mim: dá para conferir hoje
Esta é a parte que mais muda o jogo, e quase ninguém usa.
A Biblioteca de Anúncios da Meta é aberta e gratuita, e mostra todos os anúncios que qualquer marca está rodando agora no Instagram e no Facebook. O Creative Center do TikTok faz o mesmo do lado de lá. Você não precisa de conta de anunciante nem de convite.

- 1Escolha três marcas do seu nicho, de tamanhos diferentes.
- 2Procure cada uma na biblioteca e veja o que está no ar agora.
- 3Repare no que se repete nos primeiros três segundos.
- 4Repare em quantos são pessoa falando com a câmera, e quantos são imagem bonita de produto.

Em dez minutos você entende o que aquele nicho está comprando. E na hora de mandar proposta, você deixa de escrever no escuro.
Os três vídeos, e por que são estes
Três bastam para começar, e é melhor três escolhidos do que oito juntados. A escolha dá para fazer olhando o que o mercado compra de verdade, em vez de gosto pessoal.
A AppsFlyer analisou 1,1 milhão de variações de vídeo de 1.300 aplicativos, com US$ 2,4 bilhões investidos em mídia entre o primeiro trimestre de 2024 e o primeiro de 2025. Dois padrões aparecem. O vídeo de comparação, do tipo antes e depois, é o que mais gera instalação e leva 40% do investimento. O depoimento de creator segura muito mais a pessoa depois, com 36% mais retenção que a comparação. Um puxa a pessoa para dentro, o outro faz ela ficar, e a marca compra os dois.
O terceiro é o problema e solução. Ele não aparece nesse levantamento com nome próprio porque é a estrutura por baixo de quase todo anúncio de resposta direta, inclusive dos outros dois. Gravar ele prova que você sabe montar um vídeo que vende, e não só aparecer bem na frente da câmera.
| O vídeo | O que ele prova | Onde a marca usa |
|---|---|---|
| Depoimento falando com a câmera | Que você funciona sendo o rosto da marca | Anúncio de conversão e prova social na página de produto |
| Problema e solução | Que você sabe montar um vídeo que vende | Anúncio de aquisição, o formato mais pedido em briefing |
| Comparação, ou antes e depois | Que você sabe mostrar resultado sem exagerar | Anúncio de topo, quando o resultado é visível na tela |
Vídeo 1: depoimento falando com a câmera
Você olhando para a lente, do jeito que falaria com uma amiga. É o formato mais direto que existe, e o único dos três que mostra à marca como você funciona sendo o rosto dela. Mire em 25 segundos.

- 1
0 a 3 segundos: o gancho
Uma frase só, escrita palavra por palavra, dita olhando para a lente. O TikTok recomenda apresentar a proposta do vídeo nos três primeiros segundos e concentrar o gancho nos seis primeiros.
- 2
3 a 8 segundos: o ceticismo
Conte que você não acreditava. “Eu já tinha testado quatro e nenhum resolveu.” É o que separa depoimento de propaganda lida.
- 3
8 a 15 segundos: o que mudou
Um resultado concreto, com número ou com tempo. “Na terceira semana eu parei de precisar retocar no meio do dia.” Resultado vago não convence ninguém.
- 4
15 a 20 segundos: para quem serve
Diga em voz alta quem deveria comprar. Quem assiste se reconhece, e a marca usa essa frase para segmentar o anúncio.
- 5
20 a 25 segundos: a chamada
O que fazer agora, com o verbo na frente. Sem isso o vídeo acaba e a pessoa rola para o próximo.
As tomadas que você precisa ter no cartão no fim da gravação:
- O celular na vertical, apoiado na altura dos olhos, à distância de um braço estendido.
- Enquadramento do peito para cima, com espaço acima da cabeça para a legenda não bater no seu rosto.
- De frente para a janela, com a luz na sua cara e não nas suas costas.
- A mesma fala gravada com três ganchos diferentes. São três minutos a mais e você sai com três vídeos.
- Um plano extra do produto na mão, sem falar nada. Serve para cobrir corte e a marca costuma reaproveitar.
Vídeo 2: problema e solução
É a estrutura que quase todo anúncio de resposta direta usa. Gravar ela mostra à marca que você entende como um anúncio é construído por dentro. Mire em 25 segundos também.

- 1
0 a 3 segundos: o gancho que nomeia quem sofre
Fale com uma pessoa específica, não com todo mundo. “Se você lava o cabelo todo dia e ele continua oleoso até a noite.” Quem não é aquela pessoa rola, e tudo bem.
- 2
3 a 9 segundos: o problema acontecendo
Mostre, não descreva. A raiz oleosa na câmera, a gaveta bagunçada, o produto vazando na bolsa. A pessoa precisa pensar “isso é comigo” antes de você falar do produto.
- 3
9 a 14 segundos: o produto entrando
O produto aparece resolvendo exatamente o que você acabou de mostrar. Mostrar em uso vale mais do que descrever, sempre.
- 4
14 a 20 segundos: a demonstração e o diferencial
O gesto real de usar, em tempo real. Diga por que este e não outro, dito como benefício: se o produto tem um ingrediente, diga o que ele faz por quem usa, não o nome dele.
- 5
20 a 25 segundos: prova e chamada
Uma frase que mostre que não é só você achando, e a instrução do que fazer agora.
As tomadas que você precisa ter no cartão:
- O problema em plano fechado, filmado antes de você usar o produto. Se você já usou, essa tomada não existe mais.
- O gesto de usar, gravado três vezes: uma inteira, uma bem fechada nas mãos, uma de outro ângulo.
- O resultado, filmado no mesmo lugar e na mesma luz do problema. Luz diferente parece truque.
- Você falando a chamada, para poder trocar o final sem regravar o vídeo inteiro.
Vídeo 3: comparação, ou antes e depois
É o formato que mais leva investimento de mídia no levantamento da AppsFlyer, e é o que a marca procura quando o resultado dá para ver na tela. Mire em 20 segundos, porque a imagem faz o trabalho e sobra pouco a explicar.

- 1
0 a 3 segundos: o gancho já mostrando os dois lados
Comece com a tela dividida ou com o corte seco entre antes e depois. Aqui o gancho é visual, e a fala vem por cima.
- 2
3 a 8 segundos: o jeito antigo
O processo que a pessoa usa hoje, com todos os passos que ela pula na cabeça e sofre na prática. Compare com o jeito antigo de fazer, nunca com o produto de uma marca concorrente pelo nome.
- 3
8 a 14 segundos: o jeito novo
O mesmo objetivo com o produto, filmado do mesmo ângulo e na mesma luz. Enquadramento igual é o que faz a comparação parecer honesta.
- 4
14 a 20 segundos: o resultado e a chamada
Os dois lados juntos na tela pela última vez, e a instrução do que fazer agora.
As tomadas que você precisa ter no cartão:
- O antes e o depois no mesmo enquadramento, com o celular no mesmo lugar. Marque o chão com fita se precisar.
- A mesma luz nos dois. Grave os dois no mesmo horário do dia, ou nos dois dias no mesmo horário.
- Uma tomada de tela dividida, se o seu editor de celular fizer. A maioria faz.
- Um plano do produto, para a marca ter o que usar de capa.
Se não existe jeito antigo óbvio nem resultado visível, troque este terceiro vídeo por três motivos. O gancho anuncia os três, o primeiro é funcional, o segundo é emocional, o terceiro é o resultado, com demonstração por cima enquanto você fala. Ele prova que você sabe transformar característica em benefício, que é a parte que a maioria erra.
As regras que valem para os três: verticais, com áudio limpo, com legenda, e usando produto que você já tem em casa. Ninguém precisa saber que não foi campanha, desde que você também não diga que foi.
Vale a pena ter um vídeo de apresentação?
Vale ter gravado, e a resposta sobre onde ele entra depende de uma coisa só: se a plataforma tem campo próprio para ele ou se ele divide a grade com os seus trabalhos.
Quando existe campo próprio, ele é obrigatório e não disputa vaga com os seus trabalhos. A Creatify, uma das plataformas de UGC que operam no Brasil, pede perfil completo com vídeo de apresentação e pelo menos quatro vídeos de trabalhos anteriores para o creator entrar no nível de destaque dela.
Grave ele mesmo assim. Ele é o que você manda por mensagem quando uma marca chega pelo Instagram, é o que entra no link do Drive, e é o que a próxima plataforma vai pedir de você no cadastro. Trinta segundos, quatro blocos:
- 1
0 a 5 segundos: quem você é e para quem você grava
Nome, cidade e nicho. “Oi, eu sou a Ana, moro em Recife e gravo para marcas de beleza e de casa.” Sem introdução longa e sem contar a sua história.
- 2
5 a 15 segundos: o que você entrega
Os formatos que você grava e em quantos dias você entrega depois de aprovada. É a informação que a marca procura e quase ninguém dá.
- 3
15 a 25 segundos: uma prova
Uma marca com quem você já trabalhou, um resultado, ou o trabalho que você mais gosta entre os que gravou por conta própria. Se ainda não teve campanha, fale do que você grava em casa, sem chamar de campanha.
- 4
25 a 30 segundos: o que você procura
O tipo de campanha que combina com você. Isso filtra convite errado e economiza o seu tempo e o da marca.
- Trinta segundos é o teto. Passou disso, vira entrevista.
- Mesmo enquadramento e mesma luz do depoimento, para o perfil inteiro parecer da mesma pessoa.
- Regrave quando o seu nicho mudar ou quando você fechar uma campanha que valha ser citada.
Ganchos para não travar na primeira frase
O gancho é a única parte do vídeo que vale escrever palavra por palavra. O resto você fala com as suas palavras, senão vira propaganda lida. Estes servem para os três vídeos acima, e é só trocar o que está entre colchetes.
- Se você sofre com [problema], olha isso.
- Eu achava que [categoria] era tudo igual, até testar este.
- Espera, por que ninguém me falou disso antes?
- Três motivos por que eu troquei de [produto].
- Como eu aguentei [tempo] fazendo isso do jeito difícil.
- Testei por [tempo] e não era o resultado que eu esperava.
- Se você ainda [hábito], para agora.
- Ninguém fala disso, e muda o [resultado] inteiro.
Grave o mesmo vídeo com dois ou três ganchos diferentes. Custa três minutos a mais e dobra o que você tem para mostrar, porque a marca enxerga que você sabe testar abertura.
Onde achar o problema, quando ninguém te deu um
Se você está gravando por conta própria, ou se o briefing chegou vago, tem um lugar onde o problema já está escrito por quem viveu ele: as avaliações do produto.
Leia o que as pessoas dizem que aquele produto resolveu. Elas usam as palavras delas, que são as palavras que quem assiste reconhece. Vale mais do que qualquer coisa que você inventaria por conta própria.
Vertical é o padrão, não é a única resposta
Quase tudo neste post assume Reels e TikTok, porque é para lá que a maior parte do UGC vai. Mas não é o único destino, e tratar o vertical como lei fecha portas que estão abertas.
Anúncio de produto na Amazon e no Mercado Livre roda na horizontal. Página de produto também. YouTube fora do Shorts também. São lugares que compram vídeo de creator e que quase ninguém disputa, justamente porque todo mundo só grava vertical.
E vídeo longo voltou a funcionar. Aquele formato de alguém falando por três, quatro minutos, sem corte a cada dois segundos, tem público e tem marca comprando. Se é o que você faz bem, é o que deve estar no seu portfólio.
O que realmente tira força
Pouca coisa, e nenhuma delas tem a ver com formato.
- Mandar tudo em vez de escolher. Não é o número que atrapalha, é a ausência de escolha: portfólio sem curadoria diz que você não sabe qual é o seu melhor trabalho.
- Três vídeos provando a mesma coisa. Variedade é o contrário de problema, desde que cada um mostre uma habilidade diferente.
- Dizer que trabalhou com uma marca que não te contratou. Gravar com produto que você comprou é normal e é como todo mundo começa. Chamar isso de campanha é outra coisa.
- Receber produto ou comissão e não identificar como publicidade. Desde o guia do CONAR de 2026, produto recebido sem pagamento já basta para o conteúdo ser publicidade, e a identificação tem que aparecer no começo do vídeo.
Onde esse portfólio vai viver
Portfólio solto num link do Drive funciona, e é assim que a maioria começa. Mas ele fica melhor onde a marca já está procurando, ao lado da sua nota e do seu histórico de entregas.

Na Simmark, o portfólio fica no seu perfil, e é o que a marca abre antes de aprovar a sua candidatura. Por isso ele decide mais do que qualquer mensagem que você escreva junto.
São três vagas, e elas são três de propósito. A marca abre dezenas de perfis por campanha e decide em segundos, então o que faz diferença é ter escolhido, não ter juntado. As três vagas são o depoimento, o problema e solução, e a comparação.
Antes de mandar
A conferida rápida
0/5Dentro do app, essa conferida é da própria tela de envio: ela mostra o formato e a duração do arquivo antes de você confirmar, e avisa quando algo está fora do que a campanha pediu.
Resumindo
- As marcas pedem dois tipos de conteúdo, e eles têm tarefas diferentes.
- O orgânico vive no perfil da marca. O pago vira anúncio, e por isso costuma valer mais.
- Unboxing, rotina e imagem bonita puxam para o orgânico. Depoimento, problema e solução e comparação puxam para o anúncio.
- Os três que decidem: depoimento falando com a câmera, problema e solução, e comparação ou antes e depois.
- Cada um tem roteiro com tempo e lista de tomadas. Mire em 20 a 25 segundos e grave mais material do que o roteiro pede.
- O vídeo de apresentação vale gravar, e só entra na grade quando a plataforma tem campo próprio para ele.
- O gancho é a única parte que se escreve palavra por palavra.
- A biblioteca de anúncios é aberta: dá para ver hoje o que o seu nicho está comprando.



